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Saúde Bucal na Gravidez: 7 mitos que toda gestante precisa saber

Por que existem tantos mitos sobre odontologia na gravidez?

A gestação desperta cuidados e preocupações em todas as áreas da saúde — e com a odontologia não é diferente. O problema é que, misturados aos cuidados legítimos, circulam crenças populares que acabam afastando as gestantes do dentista exatamente quando mais precisam de acompanhamento.

O resultado? Problemas bucais que poderiam ser prevenidos ou tratados com facilidade evoluem e, em alguns casos, chegam a ter repercussões para além da boca. Vamos desmistificar, um a um, os equívocos mais comuns que chegam ao nosso consultório.

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Mito 1: "O bebê rouba cálcio dos dentes da mãe"

Falso. Essa talvez seja a crença mais antiga e mais persistente. A história é que o bebê, para se desenvolver, retira cálcio dos dentes da mãe — e por isso ela perderia estrutura dental durante a gestação.

A realidade é outra. O esmalte dentário é um tecido altamente mineralizado e praticamente inerte — ele não participa do metabolismo de cálcio do organismo depois de formado. O cálcio necessário para o desenvolvimento fetal vem da alimentação da mãe e, quando a dieta é insuficiente, o organismo mobiliza cálcio dos ossos, não dos dentes.

O que pode acontecer com os dentes durante a gravidez tem outras causas: enjoos frequentes que expõem o esmalte ao ácido gástrico, mudanças na dieta e alterações hormonais que afetam a gengiva. Mas "o bebê roubar cálcio dos dentes" não é uma delas.

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Mito 2: "Grávida não pode ir ao dentista"

Falso. Pelo contrário — a recomendação de todas as sociedades de odontologia e do próprio Ministério da Saúde é que a gestante consulte o dentista no início da gravidez e mantenha o acompanhamento durante toda a gestação.

O segundo trimestre (entre a 13ª e a 27ª semana) é considerado o período mais confortável e seguro para procedimentos eletivos. Mas isso não significa que o primeiro e o terceiro trimestres sejam proibidos: urgências — como dor, infecção ou trauma — devem ser tratadas em qualquer fase da gravidez.

Adiar tratamentos por medo acaba sendo mais arriscado do que realizá-los com os devidos cuidados.

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Mito 3: "Anestesia dentária faz mal ao bebê"

Falso. A anestesia local usada em odontologia — normalmente à base de lidocaína — é considerada segura na gestação. Formulações sem vasoconstritor (adrenalina) ou com vasoconstritor em concentrações baixas são bem toleradas e amplamente utilizadas em gestantes.

O que é realmente prejudicial é realizar um procedimento doloroso sem anestesia. A dor provoca estresse, eleva os níveis de cortisol e adrenalina endógena — e aí sim pode haver consequências. Quando o tratamento exige anestesia, ela deve ser usada.

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Mito 4: "Raio-X dentário é proibido na gravidez"

Falso, com ressalvas. Radiografias desnecessárias devem ser adiadas por precaução — esse é o princípio geral. Mas quando existe indicação clínica, como uma urgência endodôntica ou periodontal, a radiografia dental pode e deve ser feita.

A dose de radiação de uma radiografia periapical (aquela pequena, de um dente) é extremamente baixa. Com o uso do avental de chumbo cobrindo o abdômen da paciente — procedimento padrão —, a exposição do feto é clinicamente desprezível. A decisão deve ser sempre individualizada, pesando risco e benefício.

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Mito 5: "Sangramento na escovação é normal na gravidez"

Parcialmente falso. A gengivite gravídica é real e muito comum: as alterações hormonais da gestação (especialmente o aumento de estrogênio e progesterona) tornam a gengiva mais inflamada e sensível à presença de placa bacteriana. Estudos mostram que até 75% das gestantes apresentam algum grau de gengivite (Silk et al., Journal of Midwifery & Women's Health, 2008).

O erro está em encarar esse sangramento como inevitável e deixá-lo de lado. A gengivite gravídica responde muito bem à limpeza profissional e à melhora da higiene em casa. Sem tratamento, pode evoluir para periodontite — e a doença periodontal durante a gestação está associada a risco aumentado de parto prematuro e baixo peso ao nascer.

Sangramento gengival não é algo a aceitar passivamente. É algo a tratar.

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Mito 6: "Clareamento dental pode ser feito na gravidez"

Falso. Este é um dos poucos procedimentos que realmente deve ser adiado para após o parto. Os agentes clareadores (peróxido de hidrogênio e peróxido de carbamida) não têm estudos de segurança suficientes em gestantes, e o princípio da precaução é claro: sem necessidade clínica, sem exposição a substâncias sem dados de segurança na gravidez.

Clareamento é um procedimento estético eletivo. Esperar alguns meses até o parto — ou até terminar a amamentação — é a orientação correta.

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Mito 7: "Extrair um dente na gravidez pode causar aborto"

Falso. Essa crença antiga associava a extração a riscos obstétricos, mas não há base científica para isso. Uma extração dental indicada, realizada com anestesia adequada e os cuidados normais do pós-operatório, é segura durante a gestação.

O que realmente representa risco é manter um dente com infecção ativa — um abscesso dental gera bacteremia (bactérias na corrente sanguínea), resposta inflamatória sistêmica e estresse fisiológico. Esses são fatores com impacto real na gestação. Tratar a infecção — seja com extração, drenagem ou tratamento de canal — é sempre a decisão mais segura.

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O que realmente importa: o pré-natal odontológico

Mais do que evitar mitos, a gestante precisa de acompanhamento ativo. O pré-natal odontológico inclui:

  • Avaliação completa da saúde bucal no início da gestação
  • Limpeza profissional para controle da gengivite gravídica
  • Tratamento de cáries e problemas periodontais antes que progridam
  • Orientações de higiene bucal adaptadas para a gestação (incluindo como cuidar dos dentes após episódios de vômito)
  • Planejamento dos procedimentos por trimestre, priorizando o que é urgente e adiando o que é eletivo

A Dra. Marcela de Barros realiza pré-natal odontológico em Caxias do Sul, com atendimento humanizado e protocolos específicos para gestantes. Se você está grávida ou planejando engravidar, agende sua consulta — sua saúde bucal é parte do cuidado com a sua saúde e a do seu bebê.

Escrito por Dra. Marcela de Barros — CRO/RS 22637

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